Desserviço que compromete todas as lutas

 Leal de Campos* 

Em face de uma série de equívocos e da persistente incapacidade de apreender os significados dos tempos atuais, as esquerdas reformistas se satisfizeram, e ainda se satisfazem, com a volta do populismo pós-ditaduras na América Latina, como se isso fosse, de fato, um grande e significativo avanço político.

E nessa mesma direção, ainda insistem em controlar e aparelhar sindicatos e centrais, uniões e associações estudantis, bem como movimentos sociais, enquanto resistem aceitar novas formas de organização pela base, de caráter plural, inclusive, trazendo de volta a ideia de "governos progressistas". Isto é, uma flagrante repetição de situações que se deram em contextos distintos de épocas passadas, travando e engessando muitas lutas.

É, portanto, a redução (pura e simples) da luta de classes a "um inimigo que vem de fora" condicionando a nossa luta, neste caso, a uma demanda pela “soberania” do país. Ou seja, um enganoso enfrentamento nacionalista aos ditos imperialismos de todos os matizes, mas em especial ao estadunidense, aos Estados Unidos (EUA). Entretanto, sabe-se muito bem que eles não passam de representações específicas, desde que raiz de tudo isso é o velho e conhecido CA-PI-TA-LIS-MO como um sistema socioeconômico que, embora já falido e exaurido, ainda é capaz de sobreviver desde que não é contestado como deveria ser.

Nessas tais circunstâncias, também se pode perceber, claramente, que a extrema-direita está se reorganizando e trazendo de volta várias propostas nacionalistas de caráter fascista, discriminatório e xenofóbico. Através das quais quer determinar e sobrepor novos retrocessos ao que foi alcançado com muita luta. E assim, o que pode ser entregue para uns poucos privilegiados é retirado de outros, pincipalmente através da precarização do trabalho formal via terceirização e da precarização de salários dos trabalhadores em geral, abrangendo direitos antes assegurados.

Essa constatação nos leva a concluir que continua sendo muito difícil se reorganizar a classe trabalhadora e os demais excluídos, tendo em vista as recorrentes dificuldades para se superar a “ficção” das proposições populistas reformistas. Incluindo-se, neste caso, às direções pelegas que tudo fazem para manter o seu domínio político burocrático a todo custo.

Não obstante, claro está que já não existe nenhuma eventualidade de se “melhorar” o Capitalismo e torná-lo benéfico para a maioria da população, que tem sido espoliada sempre devido ao processo de concentração de renda nas mãos de poucas pessoas. Uma triste realidade pela qual se expressa o sistema vigente com todas as suas contradições, mas que não tem como se livrar da ganância de maximização dos seus lucros. E isto se dá por conta do seu caráter explorador da força de trabalho e da sua inerente lógica por extrair mais-valia em todas as atividades e ações do circuito econômico-financeiro do dia a dia.

A destruição global do meio-ambiente é outra verdade que choca profundamente, diante de um processo acelerado de exploração dos combustíveis fosseis, de minerais e de cursos d’águas para daí extrair o sumo dos investimentos aplicados nestas áreas. Esta é essência do Capital e da dinâmica implantada por ele, aproveitando-se enfim das constantes inovações em tecnologias. E quando não se denuncia o seu caráter predatório e nem se mostra todas as suas chagas e mazelas, as coisas continuam tal como estão, sem possibilidades de se promover mudanças estruturais.

De outro lado, tem-se que esclarecer que o reagrupamento de forças conservadores de extrema-direita em todas as partes do mundo, em particular na Europa e também nos EUA, é fruto da ausência de um combate direto e sistemático contra o sistema capitalista. Ou seja, procura-se apenas amenizá-lo e, a partir disso, encontrar formas de conciliação entre as classes para que daí se possam sacar algumas improváveis “reformas” através de eleições, ou da atuação parlamentar. O que tem se mostrado impraticável e gerado inumeráveis impasses, permitindo que forças retrógadas voltem a atuar, agora, com muito mais força, no sentido de desconstruir estas ardilosas propostas.

Não deixa de ser “um chega pra lá” que mesmo assim não tem sido absorvido e analisado com a devida atenção crítica, por parte dos grupos que se dizem de esquerda. Uma falta de percepção de que este trágico caminho trilhado até hoje não possibilita avanços consistentes nem muito menos favorece a organização autônoma e independente da classe trabalhadora, especialmente. Muito pelo contrário, pois se trata de uma inconveniente e desnecessária movimentação política por meio da qual todos os trabalhadores ficam reféns das burguesias, em cada país. E vendem sempre, sem a menor cerimônia, ilusões e fantasias. Dizem que a culpa é dos governos de plantão, sem explicar que por trás deles estão as emblemáticas instituições que funcionam a toda hora a serviço das classes dominantes e do aparato administrativo.

Todavia, não se pode jamais esquecer que o Estado representa uma determinada classe, que exerce (de fato) o poder político em todos os níveis e instâncias. Então, como se pode ignorar isto para se continuar insistindo-se em viabilizar políticas reformistas, tão somente? Uma realidade que é bem utilizada por todos aqueles que se prestam gerenciar os negócios da burguesia, em troca de alguns privilégios e de grandes negociatas, aproveitando-se de todo um processo de alienação que ainda perdura.

Em face de tão grave e nefasto desserviço, prestado por essas esquerdas reformistas e populistas, não se tem como denunciar e encarar com firmeza o atual sistema socioeconômico ainda em vigor. Situação esta que nos causa inúmeros prejuízos e empurra, na prática, as nossas lutas para “um beco sem saída”.

 

Recife (PE), 27 de novembro de 2016.

 

(*) Militante socialista, ex-preso político e economista.

 

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